Por Cristiano Stefenoni
Você diz que é crente, mas continua cantando sobre adultério, prostituição (…) É uma conversão que não tem mudança.” A crítica, direcionada à cantora Simone Mendes, é do fundador do Ministério Plenitude de Avivamento, pastor André Fabiano, que batizou a artista. Por meio de suas redes sociais, ele questionou o fato de ela continuar na música sertaneja, em vez de se dedicar ao gospel. O embate traz à tona uma antiga discussão: o que é ser uma pessoa realmente convertida?
De acordo com o teólogo Lourenço Stelio Rega, Ph.D. em Ciências da Religião e também especialista em Bioética pelo Hospital Albert Einstein, a conversão verdadeira envolve três pontos específicos: reconciliação, reconstrução e redirecionamento. “Em primeiro lugar, o retorno para Deus tem um ponto de partida, que é resolver o seu estado rebelde por meio da fé em Jesus Cristo que, com sua morte e ressurreição, nos abriu esse caminho de volta”, explica.
Após se reconciliar com Deus, o próximo passo, segundo Rega, é passar pelo processo de reconstrução pessoal, que envolve todos os aspectos da vida. “O apóstolo Paulo nos ensina que se ‘alguém está em Cristo, é nova criação’ (2Co 5.17), e, como uma nova criatura, terá diante de si o desafio de reconstruir seu projeto de vida à luz do Plano da Criação, por meio dos valores bíblicos”, justifica.
Feito isso, agora é o momento de colocar a vida na mesma direção que Deus quer que a pessoa siga daqui em diante. “Isso é um processo que requer renovação da mente (Rm 12.2) e redirecionamento da vida, em que o nosso projeto pessoal passa a se alinhar com a missão de Deus em resgatar toda a criação e criatura (missio Dei)”, ressalta Rega.
Segundo o teólogo, a situação de a pessoa continuar no erro mesmo dizendo que aceitou Jesus poderia ser minimizada com um preparo mais profundo para o batismo e um cuidado especial no discipulado após a conversão do neófito.
“O discipulado passou a ser mero tempo para estudo de algum livro ou da Bíblia e deixou de ser um modelo prático e concreto de vida transformada. Assim, a pessoa fica ‘sábia’ em conhecer esses detalhes do conhecimento bíblico, mas continua vivendo como se a vida fosse o que era, só que agora ela tem como que um ‘cartão magnético para entrar no céu’. Então, a mudança de vida fica para o rodapé da história”, critica.
Stelio diz que, em geral, prega-se verbalmente a salvação e a coloca como um conjunto de conceitos que a pessoa deve aceitar. “Uma vez que aceita, então, diante dela é colocada a esperança de que Jesus um dia virá. Enquanto isso, ela deve se ocupar dominicalmente com a igreja e contribuir com o sustento dos missionários. E isso não está necessariamente errado, só que é uma pequena parte de toda a verdade”, afirma.
Para o teólogo, tanto a pessoa recém-convertida quanto a igreja têm sua parte a cumprir nesse processo de santificação. “A pessoa precisa ter consciência de que está em um estado de rebeldia contra o Criador e que o único caminho de volta é por meio de Jesus Cristo. Já a igreja precisa redescobrir, nas Escrituras, que o centro de tudo não é a salvação, mas o próprio Deus. Ele é o centro de tudo, ele e o seu Plano da Criação. A salvação, embora não seja o centro, é a porta de regresso, como um carro que vai para a oficina ser colocado em ordem para cumprir a sua função”, define.
O pastor lembra que, antes de tudo, estar realmente convertido é viver como se fosse um cidadão do Céu. “Nascemos para a glória de Deus e, com a rebeldia, deixamos de cumprir esse papel (Rm 3.23). Ao aceitar Jesus, somos reposicionados ‘de volta no Éden’ para, a partir dali, reconstruir nossa vida, nossos valores, nossos relacionamentos e nossa cosmovisão à luz dos ideais do Plano da Criação, por meio dos princípios bíblicos”, finaliza.
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